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Esta é a Cidade

O Porto © José Manuel Bacelar   Esta é a Cidade, e é bela. Pela ocular da janela foco o sémen da rua. Um formigueiro se agita, se esgueira, freme, crepita, ziguezagueia e flutua. Freme como a sede bebe numa avidez de garganta, como um cavalo se espanta ou como um ventre concebe. Treme e freme, freme e treme, friorento voo de libélula sobre o charco imundo e estreme. Barco de incógnito leme cada homem, cada célula. É como um tecido orgânico que não seca nem coagula, que a si mesmo se estimula e vai, num medido pânico. Aperfeiçoo a focagem. Olho imagem por imagem numa comoção crescente. Enchem-se-me os olhos de água. Tanto sonho! Tanta mágoa! Tanta coisa! Tanta gente! São automóveis, lambretas, motos, vespas, bicicletas, carros, carrinhos, carretas, e gente, sempre mais gente, gente, gente, gente, gente, num tumulto permanente que não cansa nem descança, um rio que no mar se lança em caudalosa corrente. Tanto sonho! Tanta esperança! Tanta mágoa! Tanta gente! António Gedeão [Ró...

rapariga do primeiro

A um segundo de estacionar o carro, depois de uma rua limpa, ele pergunta a um carro que sai, então, onde é que é. Uma voz masculina responde da torre que é no quarto andar, mas o do carro disse que era uma rapariga no primeiro. Então, como é que é, pergunta, titubeante, com uma súbita mudança de tom de voz. Mais máscula, mais forte, mais pronúncia do Norte. E o passo apressa. É a rapariga do primeiro. Anda, segue-me. Não ouve a conversa. O coração bate forte. Uma mão estendida para o tio. E gente à volta. Toma lá. Dá cá. Caneco, não há caneco. Ninguém tem um caneco por aí? Arranja-se já! E a moça, não quer? Não, obrigada. Uma simpatia de corpo que quase não é corpo, nem de homem, de mulher. Unhas pintadas de vermelho, pernas palito, pés inchados que arrastam o chinelo. Cabelos compridos. Resto de cara de... mulher? Então tio, é da boa, pergunta a rapariga do primeiro andar que subiu e desceu as escadas e que se pôs a espreitar para baixo. Não há cinza? Pera lá, vou acender um cigar...

V I Z Z I V

Nome de código:  v i z.   Ouve lá, estás no período da ovulação?  Como é que sabes?  São muitos anos de prática médica.  A minha mãe é de Frossos e cagou-me em África. Somos 11. Todos vivos.  Outra pergunta. Isso é a minha intimidade. Eu não tenho nada que me imiscuir no que está a escrever. Israel. Telavive. Não te vou dizer a que horas mijo.  Faz-lhe um filho! Achas? Acho. Está um óvulo à tua espera. Vais bater punhetas toda a vida?  Aparece no instituto de medicina legal, ó cabeludo!  Estávamos à mesa com a família toda e a gaja pergunta: o que é que come o cabeludo?  Afinal o que é feito do baixista que eu conheço? Este gajo é bom, é muito bom.  Cerveja com favaios, a bebida dos tóxicos, no café do bairro. Dá-me aqui uma comichão, só me apetece drogar-me.  Um homem de meia idade desmaia na rua e abre a cabeça. O cabeludo sabe que os riscos de passar a infecção são poucos e mete as mãos no s...

apontamentos amorosos

Tanto gostei deste apontamento de uma agenda diária que transcrevo a mensagem, publicada no blogue  Dias que Voam: Agendas diárias ... "Um apontamento na agenda Grandella de 1913. Entre as despesas cuidadosamente enunciadas, da lavadeira, aos cigarros, uma nota de mãe babada. Foi o filho desta menina que dizia "anda cá" que me emprestou esta agenda para digitalizar. A ternura sobrevive através destes pequenos registos. E além de tudo, existem os conselhos úteis. Como limpar os sapatinhos de cetim parece-me adequado". imagem e texto publicados nos Dias que Voam Azeite e Petroleo - 640 Postaes 20, Agua Vidago 80 - 100 Pão 210, Batata 260 - 370 Cebolas 50, Alhos 10 - 60 Ervilhas 140, Azeitonas 25 - 165 Grelos 40, Ovos 110 - 150 Carne 305, Legumes 60 - 365 Cevadinha 20, [?] 20 - 40 1.890 64.900 Na secção de calçado dos Armazens Grandella, há à venda lindos sapatos de setim.

je t'aime

Je t'Aime José Bacelar ©  Era primavera como hoje, de inverno. Blossoming , no frio lá de fora e no quentinho da nossa casa.

não olvidada tradição

Fio perdido. Correio do Minho, 1931. "Calou-se agora a canção da dobadoura: quebrou o fio, e vão procurá-lo no meandro as mãos experimentadas da minhota. Em Portugal também quebrou o fio das grandes tradições populares. A Exposição do Linho e da Lã quere no meandro da vida contemporânea achar o fio da tradição perdida". [ para a inolvidável Rosa ]

sol

 Foi da crisofotografia de Santos Lima (que continuo sem saber o que é), à crisografia (arte de escrever em letras de ouro) que fui parar a um jardim de rosas (que descobri ser o  locus típico dos amantes). Foi num jardim de rosas que nos encontrei, enamorados, envoltos de sol poderoso, mar calmo, dos nossos filhos e de muita luz (e onde percebi, também, que amar, e fotografar, é como escrever com letras douradas). A sunflower to my sunflower. Konrad von Altstetten, sec. XIII.

hallelujah

compasso pascal. catarinawheelhouse 2013 A passagem para a Primavera. A passagem entre a Morte e a Vida. A passagem para o Amor.  and it is not a cold but a  warm, blessed and blossoming  hallelujah

A La Mia Casa

E eis que o capital humano trazido à cidade pelo Serviço de Voluntariado Europeu de Braga 2012 é aproveitado comme il faut ! (em genuína partilha com a cidade) inscrições, AQUI !

Braga em Lisboa

Colecção de fardamentos, António Passaporte, 1944. Encontrei um dia num livro emprestado sobre Lisboa um post-it  amarelo que lembrava: sem referências a Braga!  Hoje lembrei-me do dono do livro quando procurava imagens de Braga no Arquivo Fotográfico de Lisboa .  A palavra aparece em 310 registos: em imagens de Teófilo Braga, em fotografias de ruas cuja toponímia retém o apelido Braga, em reproduções de retratos em que o assunto é alguém da família Braga... e nos inúmeros retratos da colecção de fardamentos do Estado Novo realizados por Passaporte e repescados pelos Encontros da Imagem para a exposição "Velhas fardas - Estado Novo"  (1998). Sim, confesso que depois de me ter perdido a ver quase todas as imagens, me apercebi de que havia de existir um campo de pesquisa por "cidade". E lá estava: 50 imagens de Braga em Lisboa (incluindo fotografias de Braga nça)... Casa dos Coimbras (em Braga), Porfírio Pardal Monteiro, ca. 1920. (um dia, ainda hei-d...

de ouro

turn me on , a photo by cochinilha on Flickr. and suddenly, como quem não quer a coisa, love happens (e a cidade cinzenta fica mais colorida imaginada a dois)

especialmente para ti

especialmente para ti , a photo by cochinilha on Flickr. Ela estava acostumada a ouvir falar de uma terra distante chamada de Portugal desde pequenina. Um dia " costurou em zig zag o Atlântico e veio atar os laços atrás dos montes ” (não sem antes encontrar aquelas que viriam um dia a ser as suas damas de honor - as meninas lindas que vão na fila da frente, tão felizes como ela) O amor (e a amizade, que é também uma forma de amar) não conhece fronteiras, e é a razão desta mensagem bem lamecha (brega) para te dizer o quanto somos (mais) felizes porque o destino nos juntou um dia!

together

together , a photo by cochinilha on Flickr. Didn’t go to the photographer together but there's a picture of them together Inside or outside the picture there's a life She was not made for him Cause he likes trains and cities and sons, loads of them! She only likes him to be there, even if she doesn't like him A kind of love me or leave me as sang by Billie Holiday or Nina

Tempo de Amor

Quando duas ou mais raparigas se sentam à mesa dum café, é certinho que a conversa vai acabar em amor. Hoje foi verão na esplanada do café e lembrei-me do refrão desta música que não consegui cantarolar de maneira a que a identificassem. Se a conversa for com duas brasileiras, então vai certamente aprender novas formas de falar, como trem, se namorar (você se namora?), pondo o carro na frente dos bois, esgotar a ficha, gozar, beijinho de selo... Vai aprender também (se é que não sabe ainda) que tentar proteger os outros do sofrimento (ocultando a verdade) é perpetuá-lo no tempo. Ao contrário do que possa parecer - um acto de altruísmo - é, na verdade, a mais pura cobardia. Mas tem que sofrer, mas tem que chorar, mas tem que querer, pra poder amar. Ah, bem melhor seria  Poder viver em paz  Sem ter que sofrer  Sem ter que chorar  Sem ter que querer  Sem ter que se dar  Ah, bem melhor seria  Poder viver em paz  Sem...

fairy tale

há dias assim e dias assado. hoje foi um dia assim. conheci gente linda de sangue na guelra, com quem dá vontade de partilhar o mundo.  conheci-te de novo e fiquei com vontade de partilhar o mundo contigo. é uma pena que o mundo todo não possa ficar em nossa casa. porque é que temos de dormir e de comer, quando só tenho é vontade de te abraçar? Cupid & Psyche, Rodin , 1905 

past is a foreign country

credits O presente torna-se passado assim que acabamos de pronunciar a palavra. Agostinho sabia o que era o tempo , desde que ninguém lho perguntasse. Eu sei que o passado é agora e que agora quero visitar mil países estrangeiros (contigo) . Amanhã já não sei, mas devo querer. the past is no more, the future is not yet, and what is the "now"? the now as become past already as soon as one has finished pronouncing the word. how can something exist, that is not? Arie Wilschut

Luís

reverLX , a photo by cochinilha on Flickr. Já disse o seu nome mil vezes, já o citei outras menos, mas nunca o chamei pelo nome. Chama-se José Luís, e só falei com ele virtualmente. Chama-se José Luís Madeira e era apaixonado pela fotografia e pela sua história. Infelizmente, foi esta a única "parte" que conheci. Nada do que possa hoje escrever sobre o que fez pela história da fotografia em Portugal faz juz à sua memória. Só sei que gostava muito de ter tido tempo para o ter à minha frente para o chamar pelo seu nome.

um grande amor

     (eu não ando só, só ando em boa companhia...) Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor. Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é pra quem quer — não tem nenhum valor. Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor. (eu não ando só, só ando em boa companhia...) Para viver um grande amor, direito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É sempre necessário ter em vista um crédito de rosas no florista  — muito mais, muito mais que na modista! — para viver um grande amor. Conta pouco saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas,  molhos, fides com fitas ...

amor e uma máquina de lavar roupa (ou o fim do amor e uma cabana)

hoje, em conversa com uma amiga , cheguei mais uma vez à triste conclusão de que todas as relações amorosas, as boas e as más, e mesmo as mais ou menos, têm em si algo de terrível, que é o seu fim. mesmo as más, quando terminam, são sempre o fim de um qualquer projecto comum que não resultou e que trazem por isso sentimentos de culpa, fracasso e tristeza. lembrei-me também da importância de um casal que coabita lavar a roupa na mesma máquina de lavar, como se a máquina fosse o lugar onde os dois (ou os três ou quatro) se misturam, sujos, e se purificam, em conjunto. por isso sempre que havia tensões a dois, a roupa dele era posta de lado, enfiada num saco e enviada para a mãe. não quero misturas. a tua roupa suja és tu e eu não quero misturá-la comigo, na máquina da purificação. um dia, ele fartou-se de não lavar roupa suja e saiu de casa, e ela ficou com saudades de ver as suas roupas misturadas e penduradas ao lado uma da outra a secar. e então só conseguia pensar no luga...

mete-te no comboio...

--> Um dia que tu, leitor, esfalfadíssimo, entediado, moído, quiseres dar tréguas a tantas e tão variadas sobrecargas da vida intensa do século, para arejar o espírito, sai da maçada da conquista do pão e atira-te por este Minho , sem ideia de leres jornais e sem mesmo a companhia de um livro... Encaderna-te modesta e comodamente numa roupa folgada e começa a ver tudo quanto tens na terra – tudo quanto seja digno de ser apreciado, estudado e meditado! Arreda-te da politicagem, que não te adianta caminho (aqui me tens, republicano autenticamente histórico, que troca a mais lírica oratória do António José de Almeida ou todas as ironias picantes do Brito Camacho pela paisagem desta bem fadada região do Norte!) Mete-te no comboio... Quem me dera envelhecer (disse eu um dia, a um amigo) num lugar como os que vi, com muitas árvores, muito sol e poucos homens...   (adaptado de Augusto Soucasaux, Setembro de 1915)