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Júlia represente!



A Júlia Mendes. in Paixão, Mucio da - Espírito alheio: episodios e anecdotas de gente de theatro. São Paulo: C. Teixeira & C.ª, 1916.


"Júlia Mendes foi uma rapariga talentosa que atravessou a scena portugueza com o brilho fugaz de um meteoro. Contam-se dela cousas espantosas, mas basta apenas uma referencia para se ver quanto era original a trefega rapariga. Uma vez, em Braga, á hora do espectáculo no Theatro S. Geraldo, Júlia Mendes entendeu que não devia representar. Interveio a policia e a actriz foi parar á presença da autoridade. De volta a Lisboa Júlia Mendes foi para logo assediada pelos repórters que desejam entrevistal-a. A um jornalista d' O Imparcial, disse ella: — O Galhardo perguntou-me aqui ha tempos se eu queria ir ao Brasil. Respondi-lhe logo: conforme “as condições”. — E quanto queres ganhar? — Um conto e oitocentos, passagens pagas e um beneficio. — Isso não ganha a Eéjane, disse o Galhardo, dou-te um conto de réis. — Não acceito, respondi. E por causa disso temos andado um pouco de candeias ás avessas. Mandou-me elle para o Porto. Fui. Ora, aconteceu que na noite em que se representava no Príncipe Real, A Invasão sem nada me prevenirem, substituíram a artista que costumava a trabalhar commigo por uma corista. Que diabo! Eu não serei uma artista de génio, mas quero que tenham commigo as atenções que mereço... Fomos depois para Braga, sem ao menos me dizerem em que peças iria eu entrar, na terra das frigideiras. Pelo caminho, indaguei do secretario da empresa: — Onde estão as minhas malas? — Vão juntas com as da companhia. — Olha! Se chegar lá tudo escangalhado, não represento, fica sabendo, insisti eu. Vocês andam a fazer-me partidas e depois queixem-se e digam que sou maluca. Assim que cheguei ao hotel, mandaram-me dizer que se representava naquella noite A Invasão. Chegavam nesse mesmo momento as minhas malas. Tranquillamente preparei tudo e dirigi-me para o theatro. — Eh! disse o Cabral, sabes quem vae representar contigo? É a Paz Rodrigues. — Sim ? . . . Pois fica sabendo que me vou embora. Não represento. Grita o Cabral, eu gesticulo e não lhe fico atraz. Dirigi-me á porta e metti-me no hotel. Dahi a bocado entra o commissario que se dirige a mim nestes termos : — Você tem que ir já representar. — Não trabalho porque me offenderam. — Olhe que o caso é serio ! . . . — Deixal-o ser. Não represento ! Não represento ! Não represento ! Foi um salseiro de todos os diabos. Chovem jornalistas ao hotel, empresários, estudantes. Braga, a pacifica perde a cabeça, e se lhe restam alguns cabellos, poem-se-lhes todos em pé. — D. Júlia represente! dizem-me os cónegos. — Então, D. Júlia! Está ahi tanta gente para a ouvir, supplicam os estudantes. E lá fora a multidão ululante, furiosa, clamava: — Venha D. Júlia representar! Venha! Venha! Eu já estava meio convencida. Os amáveis pedidos tinham-me chocado. Era Braga em peso que supplicava: magistrados, doutores, o seminário e a tropa. Puz o chapéo á cabeça, e vou a sahir para o theatro, mas nisto eis que de novo surge o fatal commissario de policia, que se dirige a mim, berrando: — Você vae ou não vae trabalhar? — Pois não vou! Agora é que não vou! Nisto surge um policia, um policia que me diz desaforadamente: — Hade ir, quer queira, quer não. Ande lá p'ra deante! — Não vou! Apparecem mais trez policias: — Hade ir á força ! Estava a ver que era capaz de vir toda a esquadra. . . Deu-me um impeto. Ia a atirar-me para cima da policia, quando a tensão nervosa me subjugou. Cahi com uma síncope. Quando tornei a mim, dei com o colega Simões Coelho que, á cabeceira da cama do hotel, tentava reanimar-me. O sr. dr. que mora ali perto, indignado com as brutalidades da policia, quiz que eu fugisse pelas trazeiras do hotel, que communica com a sua casa. . . A policia infame cercara o hotel e Simões Coelho declarou-me que estava presa! Isto só em Braga!! — Venha aqui o commissario, que me quero explicar, disse eu. Preciso de me defender. Eil-o que surge, o homem tenebroso, o Manique bracarense. Os ânimos estavam já serenados. Elle declarou-me então: — Os empresários nada querem da senhora. O Galhardo paga todos os prejuisos. Respirei! Fora a multidão aquietava-se. Os cónegos retiravam-se para a ceia de caldo verde; Braga, depois desse tremendo reboliço, socega, preparando-se para a somnéca reparadora. Appareceu-me, por fim, o administrador, que é um homem ás alturas, que me tratou muito bem, acabando por dizer- me que estava em liberdade. Não quiz ouvir mais nada. Peguei das malas e safei-me para Lisboa. . . — E a companhia? — Lá representou hontem e lá representa hoje! E que vae fazer agora ? Quaes são as suas intenções ? — Agora temos que falar, eu e o sr. Luiz Galhardo. Lamento a questão; o publico foi muito gentil commigo, e daqui prometto aos cónegos, ao seminário, ao quartel e aos estudantes, que não heide morrer sem lhes mostrar numa revista ou numa peça, de que habilidades e de que gentilezas é capaz uma actriz. Braga augusta, até breve! até sempre!! Júlia Mendes morreu, sem realisar essa promessa. Uma terrível tuberculose cortou-lhe em breve o delicado fio da vida. Júlia Mendes era uma rapariga alegre e buliçosa, cheia de mocidade, de graça e de encanto. Estava no theatro fazia pouco tempo, não tinha ainda biographia, mas era portadora de um nome que foi repetido por muitas boccas, por entre os echos das aclamações. Abraçando a vida artística, para a qual revelava uma tamanha vocação, ao cabo de poucos mezes, graças ao seu talento, á sua graça, conquistava os pináculos da gloria, como estrella de revistas e operetas. Possuía a irrequieta rapariga um génio um tanto aventureiro, e foi isso que a levou ao palco, acceitando radiante de alegria um contracto que ofereceu o empresário Galhardo. Surgir em scena e conquistar as sympathias do publico foi para ella obra de um momento. As platéas vibravam de enthusiasmo quando ella apparecia sobre as taboas, dando aos seus papeis o toque inconfundivel da sua innata garotice. Depois dos successos em que se viu mettida em Braga, a pacata e tranquilla terra dos cónegos, Júlia Mendes resolveu fazer-se empresaria e montou uma espécie de theatro na Feira de Agosto, com o qual chegou a ganhar rios de dinheiro. Era endiabrada a pobre e talentosa rapariga. A sua silhueta pode ser traçada com rapidez. No começo foi cançonetista e andou pelos míticos halls pelos cabarets e cafés-concerto a mostrar a sua plástica, a sua voz e a sua petulância. O êxito foi completo. Depois de recolher nesses centros de attracçoes muitos louros e muitas louras também, decidiu-se a ser estrella no género alegre. O seu triumpho foi absoluto. Estreou no Príncipe Real, de Lisboa, fazendo uns papeis na revista Ó da guarda! que foi um dos grandes successos da época. Sahindo do Príncipe Real, Júlia Mendes foi para o Avenida, obtendo ahi um êxito extraordinário nas revistas A, B. C. Foi naquella revista que ella se apresentou á platéa do Rio de Janeiro, que para logo conquistou. No meio de todos os seus triumphos artisticos Júlia Mendes mostrava-se uma bohemia incorrigível, da escola de Angela Pinto e outras. Metteu-se em muitas patuscadas, commetteu extravagâncias e loucuras que lhe abalaram a delicada saúde. O resultado foi morrer tuberculosa, em plena mocidade e em pleno fastígio da gloria. Raras raparigas no theatro terão conseguido subir tão alto em tão pouco tempo. A sua passagem pela scena lusitana pode ser comparada, no rigor da chapa, a um desses meteoros que deslumbram pelo fulgor de seu brilho para logo se atufarem nas sombras da noite eterna”.

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